liberdadE em fila
Na quinta série, o sete de setembro começava dias antes.
Na sala, um mapa do Brasil desenhado no quadro, os nomes dos generais, a data decorada até virar automática. "Sete de setembro de mil oitocentos e vinte e dois" saía da boca antes mesmo de pensar.
Já no ensino médio, era outro tipo de tédio. Não tinha mais mapa nem general, tinha redação sobre "o que é ser brasileiro" e um poema decorado pra recitar sobre pátria, sempre o mesmo, sempre com a mesma pausa dramática na palavra "liberdade". Hino cantado todo início de mês, de pé, mão no peito, meio sem jeito, enquanto alguém no fundo da sala cochichava a letra errada só pra rir.
Eu queria matar aula. Queria isso mais do que qualquer independência. Mas tinha o desfile, e ali, sim, valia a pena acordar cedo. Não pela pátria: pela roupa. A camisa social era a única ocasião do ano em que eu podia parecer alguém importante, alguém de terno, quase adulto. Tinha gente que aproveitava pra rebelar um pouco, a gravata torta de propósito, o tênis por baixo da calça social, um brinco escondido debaixo do capacete da fanfarra. Era o disfarce de civismo que a gente usava pra ser, por um dia, quem quisesse.
A camisa social da fanfarra encharcada de suor às nove da manhã, o instrumento pesando no ombro, o sol batendo direto na nuca raspada pro corte "ficar em ordem". Uma semana antes, ensaiava o hino. No dia, levantava a bandeira. Todos achavam bonito. Não sei se era.
Isso era o sete de setembro.
Hoje, os algoritmos decidem o que essa data lembra. Esse ano nem teve homem gritando diante do quartel pedindo que os generais voltem a fazer o que fizeram antes, como quem liga pro SAC da ditadura pedindo reembolso. Mas teve outra coisa: gente com bandeira dos Estados Unidos no ombro, pedindo em live, em faixa, em cartaz, que uma potência estrangeira interfira no próprio país. Pedindo sanção contra o vizinho, contra o parente, contra o colega de trabalho que vota diferente. Um povo inteiro se oferecendo de bandeja pra virar colônia de novo, só que dessa vez com aplausos.
Uma bandeira que já foi de todo mundo agora só cabe num ombro, o de quem sabe de cor a bandeira de um país que nem é o seu. Um grupo ajoelhado reza para um pneu, como se o país tivesse trocado de santo e ninguém tivesse avisado os Correios.
A verdade é que gostamos mesmo é de bandeira, não de país. Uma serve pra tirar foto, hastear, tatuar, vestir na Copa; o outro dá trabalho, cobra imposto, exige que se cuide dele todo santo dia, não só entre quatro e sete de setembro. Por isso é tão fácil pedir que estranhos venham consertar o Brasil: ninguém pede ajuda de fora pra cuidar do que realmente ama. Pede ajuda de fora pra se livrar do que só finge amar uma vez por ano, de terno, em fila, sorrindo pra câmera.