de novO_crônica da BDA
Sábado, 29 de agosto, foi o dia em que tudo aconteceu.
Presenciar a BDA era um desejo antigo, represado pelo calendário: ela acontece às segundas, dia que minha rotina trata como impossível. Ainda assim, guardei a vontade de ir, mesmo sabendo que raramente daria certo. Comprei os ingressos no escuro, sem saber onde seria o evento, sabendo apenas a data marcada e ciente de que, por serem dez anos, aquela noite teria peso de exceção.
E teve.
O lugar, a estrutura, mais de dez mil pessoas. MCs que acompanho há anos estavam ali — alguns como convidados, outros disputando cada palavra como quem disputa terreno. Foi pedrada atrás de pedrada. Algumas vazias, talvez pelo nervosismo da primeira fase, mas outras entraram para a história da noite. Entre elas, não uma rima isolada, e sim um trio: BigMike, Cesar e Barreto. Nomes de peso — um que abriu caminho para os outros, dois que seguem ativos na guerra diária das batalhas
Cesar, depois de dez anos afastado, fez seu retorno. E foi histórico justamente por não ser triunfal. Ele perdeu quase todas as rodadas; talvez em uma ou duas tenha conseguido atacar e responder à altura, mas, fora isso, foi tenso ver o rei fora de forma: falas truncadas, rimas sem efeito, ausência daquela presença que um dia foi sua marca registrada.
Os companheiros fizeram o que ele não conseguia mais fazer sozinho. Enquanto os adversários atacavam sua falta de habilidade, BigMike e Barreto usavam cada ataque como gancho para lembrar à plateia quem foi Cesar no cenário das batalhas de rima. Blindaram o rei com a própria palavra. E assim, os três chegaram à final.
Na última batalha, Cesar contra Apollo, a coisa esquentou — ou deveria ter esquentado. Eram só os dois, frente a frente, e Cesar tentou. Tentou de novo. Não conseguiu. Não acertou uma resposta sequer, pecou em cada ataque e em cada réplica. Os fiéis escudeiros, dessa vez, só observavam de longe. Eu, na plateia, senti uma vergonha alheia que dói no peito de quem assiste. Alguém tira ele dali.
Veio o resultado.
Antes de anunciar os vencedores, Emicida tomou a palavra e me deixou em choque com um discurso profundamente humano. Lembrou o quanto a cultura do hip-hop é uma forma de resistir: resistir através da arte, correr atrás dos sonhos, fazer os moleques acreditarem que uma batida, uma rima, um passo, um grafite, um scratch podem salvar uma vida. Lembrou também que Cesar já é história só de estar ali, presente, e que não precisava vencer nada para provar o que já provou para o mundo.
As dez mil pessoas escutavam em silêncio total.
Foi então que Cesar abriu o coração.
Disse que gostaria muito de fazer como antes, mas que já não consegue mais. E, naquele instante, o que eu tomava por vergonha alheia se transformou em outra coisa.
Ele foi grande.
Reconheceu a habilidade dos fiéis escudeiros, BigMike e Barreto, validou e enalteceu os premiados da noite e reafirmou o que ainda quer: tentar, mesmo ciente das dificuldades. Com o que sobrou de um homem que já foi rei absoluto do palco, Cesar disse que veio se reconstruir no único lugar que um dia o fez sonhar: a batalha.
Talvez seja isso que nos reste quando já não conseguimos fazer como antes: voltar ao lugar onde um dia fomos felizes e tentar outra vez, mesmo sabendo que o corpo, a palavra e o tempo já não obedecem como obedeciam.
Cesar não voltou para provar que ainda era o mesmo. Voltou para descobrir se ainda podia ser alguma coisa dali para frente.
A noite acabou. E o que ficou, para mim, foi isto: a queda faz parte do verso. O que não cabe na rima é desistir.
Por isso, tentar.
E tentar de novo.